
Por SIMONE SALLES
JORNALISTA, MESTRE EM COMUNICAÇÃO PÚBLICA E POLÍTICA
LONGEVIDADE MUDA O BRASIL E EXIGE NOVAS RESPOSTAS
O Brasil está mudando de idade. A cada ano, cresce o número de pessoas que chegam aos 60, 70, 80 anos e além, enquanto diminui proporcionalmente a presença dos mais jovens. O fenômeno já alterou a composição da população e começa a transformar também a saúde, o trabalho, as famílias e a forma como as cidades precisam se preparar para o futuro.
Neste 1º de outubro, Dia Internacional das Pessoas Idosas, os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram a dimensão dessa mudança. Em 2023, as pessoas com 60 anos ou mais já representavam 15,6% da população brasileira, contra 8,7% em 2000. As projeções indicam que essa participação continuará crescendo e poderá chegar a 37,8% em 2070.
Não se trata apenas de viver mais. Trata-se de viver mais tempo em uma sociedade que ainda precisa se adaptar a essa nova realidade.
A Organização das Nações Unidas estima que o mundo tenha atualmente cerca de 1,2 bilhão de pessoas com 60 anos ou mais. Em 2050, esse número deverá alcançar 2,1 bilhões. A entidade considera o aumento da expectativa de vida uma das grandes conquistas sociais das últimas décadas, mas alerta que a transformação demográfica exige mudanças nas estruturas de saúde, proteção social, trabalho, moradia e participação comunitária.
No Brasil, o desafio aparece de maneira particularmente clara na área da saúde. O avanço da idade está associado ao aumento da ocorrência de doenças crônicas e à necessidade de acompanhamento contínuo, mas envelhecer não significa necessariamente adoecer. O Ministério da Saúde destaca a importância de preservar a autonomia e a capacidade funcional, além de prevenir doenças e manter vínculos sociais.
É uma mudança importante de perspectiva. Cuidar da pessoa idosa não significa apenas tratar uma enfermidade quando ela aparece. Significa também estimular atividade física, alimentação adequada, vacinação, acompanhamento médico, saúde mental, convivência social e segurança dentro e fora de casa.
A própria família ocupa lugar importante nesse cenário. Avós que cuidam de netos, pessoas idosas que continuam trabalhando, participam de associações, ajudam financeiramente familiares ou permanecem ativas em suas comunidades mostram que a velhice está longe de representar uma etapa homogênea da vida. Há diferentes condições econômicas, níveis de autonomia, interesses e projetos.
Por isso, uma sociedade que envelhece precisa combater também o preconceito baseado na idade. O Estatuto da Pessoa Idosa, em vigor desde 2003, estabelece direitos relacionados à saúde, dignidade, liberdade, convivência familiar e comunitária, educação, cultura, trabalho, esporte e lazer. A legislação reconhece ainda prioridade especial para quem tem mais de 80 anos
A discussão ganha outra dimensão quando se observa o futuro. O IBGE projeta que a população brasileira deverá parar de crescer por volta de 2041. Depois disso, a tendência é de redução populacional acompanhada por uma proporção cada vez maior de pessoas idosas. Isso significa que escolas, hospitais, sistemas de transporte, espaços públicos, empresas e políticas sociais precisarão considerar uma população diferente daquela que o país conheceu durante boa parte de sua história.
A ONU escolheu para 2026 o tema “A era da longevidade: repensar os sistemas para uma vida mais longa”. A mensagem é direta. A conquista de viver mais precisa ser acompanhada pela capacidade de garantir qualidade a esses anos.
O Dia Internacional das Pessoas Idosas não diz respeito apenas a quem já chegou à velhice. Diz respeito a todos. Porque o Brasil que hoje aprende a cuidar melhor de seus idosos é o mesmo Brasil em que as gerações atuais irão envelhecer amanhã.








Por CARLOS AROUCK
FORMADO EM DIREITO E ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS
Em declarações públicas recentes sobre o escândalo do Banco Master, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que as investigações deveriam seguir até o fim, doa a quem doer. O jargão, usado para indicar equidistância e rigor, voltou ao ponto de partida em tom de ironia ministerial.
A revista VEJA (ed. 3016) detalha o conteúdo de áudios e anexos apresentados em junho à Procuradoria Geral da República pelo banqueiro Daniel Vorcaro. O material descreve um suposto esquema de propina e acesso aos bastidores do governo federal para alcançar os fundos de pensão de estatais.
Segundo o relato de Vorcaro, a aproximação com o núcleo do governo passou por nomes centrais do Partido dos Trabalhadores. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, teria aberto o contato inicial. Em seguida, o sócio do banco, Augusto Lima, teria tratado os detalhes operacionais com João Vaccari Neto, ex tesoureiro do PT. O ingresso no arranjo teria exigido cerca de R$ 30 milhões em espécie, encaminhados, via Paulo Okamotto, ao custeio do documentário de Oliver Stone sobre Lula, além de quantia não revelada destinada ao Instituto Lula. Ficou acertado um pedágio de 10% sobre qualquer captação nos fundos de pensão do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, da Petrobras e dos Correios. Nas contas de Vorcaro, a projeção apontava R$ 1 bilhão ao PT e R$ 9 bilhões ao operador.
No Palácio do Planalto, os contatos avançaram na Secretaria de Relações Institucionais. O ministro Alexandre Padilha teria indicado que conversas com Olavo Noleto, então secretário executivo, equivaliam a tratar diretamente com a chefia da pasta.
A proposta de acordo de Vorcaro foi recusada. Mensagens extraídas do celular do banqueiro, porém, registram a sequência dos fatos. Em 29 de abril de 2024, um intermediário identificado apenas como Júlio apresentou Vorcaro a Olavo Noleto. No mesmo dia, o Banco Master entrou na lista exaustiva, relação que credencia instituições financeiras a receber aportes dos fundos públicos. Ainda em 29 de abril, Júlio cobrou R$ 500 mil pela intermediação. Dois dias depois da inclusão na lista, Vorcaro e o ministro Alexandre Padilha jantaram na casa do banqueiro. Em outubro, Júlio enviou mensagem ao banqueiro: o PR vai te receber.
As operações sofreram um solavanco em julho de 2024, depois que a imprensa divulgou a destituição de gerentes da Caixa contrários às operações do Master. Vorcaro sustenta que movimentações com fundos municipais renderam cerca de R$ 6 milhões ao grupo ligado a Padilha. Sobre transações paralelas sob investigação, o banqueiro resumiu a própria leitura: o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi.
Lula, Alexandre Padilha e Olavo Noleto negam qualquer irregularidade ou favorecimento ao Banco Master. Até o momento, não há prova material de que o encontro com o presidente prometido por Júlio tenha ocorrido. O único registro confirmado no Palácio do Planalto data de 4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial, e tratou do andamento do Banco Master junto ao Banco Central.
A PGR descartou o anexo do delator porque pagamentos em dinheiro vivo não deixam lastro documental nem provas auditáveis. O critério gerou questionamentos nos bastidores do Ministério Público, já que o pagamento em espécie serve, por definição, para impedir a formação de provas. No mesmo pacote arquivado constavam menções a repasses ao senador Davi Alcolumbre e a integrantes do Judiciário.








RIBAMAR VIEGAS - ESCRITOR LUDOVICENSE
Ela não era aquilo que costumamos adjetivar de uma tremenda gata, mas era boa. Às seis da tarde, ela desceu do seu Ford KA e sentou-se num banco, de frente para o mar, no Jardim dos Namorados, em Salvador-Bahia. Cruzou as pernas torneadas e ficou escutando o murmúrio das ondas batendo na encosta e observando o arrebol do lindo pôr-do-sol da Bahia de Todos os Santos. Ela seguia a orientação do seu guru / guia espiritual, que lhe garantira: ─ naquele dia, naquela hora e naquele local, ela viveria uma grande emoção amorosa, a qual ela não deveria recusar.
E foi aquele movimento de cruzar as belas pernas que levou o mendigo Tiquinho ( Tiquinho porque só falava no diminuitivo), a única realidade masculina disponível naquele ponto de encontro de casais, a levantar-se do seu “confortável” leito de papelão, bocejar esticando o corpo na ponta dos pés, ─ como faz o bom baiano quando sai da horizontal – caminhar lentamente e sentar-se ao lado daquela dondoca para fazer sua fezinha.
Inicialmente Tiquinho arriscou um – boa tardinha! Ela não respondeu. Tiquinho procurou no bolso do farrapo de camisa que vestia e achou uma bituca de cigarro. Desamassou-a com os dedos, acendeu-a, puxou uma longa tragada, tocou levemente no ombro da criatura e ofereceu:
─ Vai uma tragadinha?
Ela manteve-se imóvel, olhando para o mar, calada.
Tiquinho apagou a bituca de cigarro, guardo-a e procurou no bolso da calça algo mais romântico para oferecer. Achou! Uma bala doce fora do papel embalagem. Após soprá-la várias vezes para limpá-la dos fiapos de linha, ele repetiu o toque suave no ombro da perua e ofereceu a bala doce:
─ Vai uma lambidinha?
Mantendo a cabeça direcionada para frente, ela só desvio disfarçadamente os olhos para vê o que aquele doido lhe oferecia para lamber. Ao ver que se tratava de uma bala doce, respirou fundo e voltou o olhar para o horizonte do mar, mantendo-se estática, calada, impassível.
Tiquinho, sem mais nada de artificial para oferecer, jogou a bala doce na boca, deu um tempinho, movimentou lentamente a mão no laço que amarrava o cós da calça, puxou, botou pra fora e com a outra mão tocou mais uma vez de mansinho do ombro da mulher, só para confirmar o que já lhe parecia óbvio: a recusa. Contudo, ainda com uma pontinha de esperança, ele perguntou:
─ Quer dizer que um pouquinho disso aqui, nem pensar, né?
Pela primeira vez a mulher falou, ou melhor, sussurro sem deixar de olhar para o infinito do mar:
─ Não fumo e nem gosto de bala doce!
─ Mas isso aqui não é cigarro e nem bala doce – replicou Tiquinho cheio de ereção.
Sem desviar o olhar fixo para a Bahia de Todos os Santos, aquela puritana intuitivamente, movimentou a mão e tocou na última oferta do mendigo. Inicialmente houve aquele oh! com a inusitada surpresa. Depois ela levantou-se e olhou para todos os lados. Ninguém por perto, só Tiquinho. Como a orientação do guru era não recusar, pois não é que, naquele inicio de noite, o mendigo Tiquinho foi convidado a fazer dentro do Ford KA o que faziam outros casais no interior dos carros ali estacionados?... Amor!?
(Guru / guia espiritual?... Tô fora!

























