- há 3 horas

RIBAMAR VIEGAS - ESCRITOR LUDOVICENSE
Durante a festinha de comemoração da justa aposentadoria do metalúrgico Florisvaldo Pinheiro, Seu Flor, como era conhecido, a conversa era uma só: se ele, dispondo de tão pouco tempo (trabalhava em sistema de turno) para Dona Santinha, a esposa, eles viviam às mil maravilhas, doravante, então, que ele teria todo tempo disponível só para ela, a vida dos dois seria aquele mar de rosas!
Só que a coisa não foi bem assim.
Os primeiros dias de “coçação” até que o recém-aposentado tirou de letra, dedicando-se aos afazeres da casa. Pintou, retocou, limpou, tirou goteiras e ainda dava uma mãozinha na cozinha. Dona Santinha era só satisfação:
─ Flor, você pode compor a mesa para o almoço?
─ Claro, Santinha, claro!
─ Flor, eu lavo os pratos e você enxuga, certo?
─ Certo!
Passados quatro meses de aposentado, o tédio da ociosidade deu um empurrãozinho e Seu Flor passou a sair de casa após o café da manhã e só voltar na hora do almoço. Dona Santinha deu os primeiros sinais de preocupação com o marido.
─ Flor, pode me dizer onde você está indo todas as manhãs até esta hora?
─ Na venda do Mundico, rolar um dominozinho para matar o tempo, mulher, só isso.
Já se fazia notar, até pelo bafo, que, entre um passe e uma batida no dominó, o novo aposentado estava bochechando umas e outras, daí a preocupação da esposa.
Com seis meses de aposentado, Seu Flor já era figura imprescindível nos meios “birísticos” do bairro onde morava. Era boa paga. Portanto, tinha cadeira cativa nas mesas de dominó em todos os botecos do lugar.
Dona Santinha já não era mais a mesma:
− Flor, será que já não é hora de você dar um basta nesse dominó? Ontem você não almoçou e nem jantou por causa desse maldito jogo!
− Quem? Eu? Foi? Pois vou comprar um peixe para fazer uma moqueca e tirar a forra no almoço de hoje!
Com esse propósito, o aposentado Flor saiu de casa pela manhã e só se lembrou do peixe às seis da tarde, quando ouviu a voz de um menino ecoar no boteco de Mundico:
− Olha o peixe! Olha o peixe! Só tem esse! Quem vai querer essa beleza?
─ Quanto custa? – perguntou Seu Flor, após rolar uma bucha de quadra e jogar mais uma cachaça goela abaixo.
─ Cinquenta reais – respondeu o garoto, exibindo o belo peixe.
─ Tome o dinheiro, embrulhe o peixe e pode deixar aí no balcão.
Já passava das oito da noite quando Seu Flor, de cara cheia, chegou à casa, com o peixe debaixo do braço, embrulhado num jornal.
Dona Santinha já não fazia jus ao nome:
─ Bonito! Muito bonito! Depois de velho, irresponsável e mentiroso!
─ Alto lá! Mentiroso, não! Saí para comprar peixe e tá aqui o peixe – retrucou o ex-metalúrgico, entregando o embrulho à mulher.
Ele não andou três passos em direção ao banheiro e viu o peixe espatifar-se contra a parede à sua frente.
─ Esse peixe, seu cachaceiro, só quem come é você e seus parceiros de dominó! ─ berrou a pobre mulher, desapontada.
Só aí Seu Flor se tocou que trouxera para casa um peixe de gesso. Desses que só servem para enfeitar parede.
Com pouco mais de um ano de aposentado, o jogo de dominó regado a pinga no boteco de Mundico tornara-se uma obsessão no cotidiano de Seu Flor. E as brigas do casal também viraram rotina.
Até que, ao completar dois anos da aposentadoria de Seu Flor, aquele que fora bom marido, bom pai e bom avô saiu de casa pela manhã, dessa feita para pagar as contas de água e luz e, como de costume, caiu no dominó. Passava da meia noite quando ele cedeu aos insistentes convites dos parceiros de jogo e, pela primeira vez, foi parar num puteiro. Lá conheceu Zumira a quem, intuitivamente, apelidara de ás de branco, correlacionando uma vista perdida da prostituta com a pedra do dominó. Gostou tanto da cabrocha que só voltou para casa à tarde do dia seguinte, sem dinheiro, sem pagar as contas de água e luz e numa ressaca memorável.
Dona Santinha, que já era o próprio capeta em figura de gente, colocou a mala de Seu Flor fora da casa e apelou para tudo ou nada:
─ Seu cachaceiro, cretino, sem vergonha! Pra mim chega! Agora você decide! Ou eu ou esse maldito dominó!?
─ Para o desapontamento maior da pobre mulher, Seu Flor pegou a mala e respondeu sem titubear:
− O dominó!!






- há 6 horas

Na véspera da partida do Senhor, no rumo de Sídon, o culto do Evangelho, na residência de Pedro, revestiu-se de justificável melancolia. As atividades do estudo edificante prosseguiriam, mas o trabalho da revelação, de algum modo, experimentaria interrupção natural.
A leitura de comoventes páginas de Isaías foi levada a efeito por Mateus, com visível emotividade; entretanto, nessa noite de despedidas ninguém formulou qualquer indagação.
Intraduzível expectativa pairava no semblante de todos.
O Mestre, por si, absteve-se de qualquer comentário, mas, ao término da reunião, levantou os olhos lúcidos para o Céu e suplicou fervorosamente:
— Pai, acende a Tua Divina Luz em torno de todos aqueles que Te olvidaram a bênção, nas sombras da caminhada terrestre.
Ampara os que se esqueceram de repartir o pão que lhes sobra na mesa farta.
Ajuda aos que não se envergonham de ostentar felicidade, ao lado da miséria e do infortúnio.
Socorre os que se não lembram de agradecer aos benfeitores.
Compadece-te daqueles que dormiram nos pesadelos do vício, transmitindo herança dolorosa aos que iniciam a jornada humana.
Levanta os que olvidaram a obrigação de serviço ao próximo.
Apiada-te do sábio que ocultou a inteligência entre as quatro paredes do paraíso doméstico.
Desperta os que sonham com o domínio do mundo, desconhecendo que a existência na carne é simples minuto entre o berço e o túmulo, à frente da Eternidade.
Ergue os que caíram vencidos pelo excesso de conforto material.
Corrige os que espalharam a tristeza e o pessimismo entre os semelhantes.
Perdoa aos que recusaram a oportunidade de pacificação e marcham disseminando a revolta e a indisciplina.
Intervém a favor de todos os que se acreditam detentores de fantasioso poder e supõem loucamente absorver-te o juízo, condenando os próprios irmãos.
Acorda as almas distraídas que envenenam o caminho dos outros com a agressão espiritual dos gestos intempestivos.
Estende paternas mãos a todos os que olvidaram a sentença de morte renovadora da vida que a tua lei lhes gravou no corpo precário.
Esclarece os que se perderam nas trevas do ódio e da vingança, da ambição transviada e da impiedade fria, que se acreditam poderosos e livres, quando não passam de escravos, dignos de compaixão, diante de teus sublimes desígnios.
Eles todos, Pai, são delinqüentes que escapam aos tribunais da Terra, mas estão assinalados por Tua Justiça Soberana e Perfeita, por delitos de esquecimento, perante o Infinito Bem...
A essa altura, interrompeu-se a rogativa singular.
Quase todos os presentes, inclusive o próprio Mestre, mostravam lágrimas nos olhos e, no alto, a Lua radiosa, em plenilúnio divino, fazendo incidir seus raios sobre a modesta vivenda de Simão, parecia clamar sem palavras que muitos homens poderiam viver esquecidos do Supremo Senhor; entretanto, o Pai de Infinita Bondade e de Perfeita Justiça, amoroso e reto, continuaria velando...
Do livro: JESUS NO LAR
CHICO XAVIER/NEIO LÚCIO







Por SIMONE SALLES
JORNALISTA, MESTRE EM COMUNICAÇÃO PÚBLICA E POLÍTICA
Em um tempo marcado por incertezas, relações frágeis e uma avalanche de informações que confundem mais do que esclarecem, a Semana Santa surge como um convite para redescobrir o sentido da vida à luz do amor que se doa. Não se trata apenas de recordar acontecimentos passados, mas de permitir que o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus transforme o presente, ilumine nossas escolhas e reacenda a esperança que tantas vezes parece enfraquecida.
A Páscoa é o coração dessa experiência. É ela que sustenta e dá sentido à esperança cristã por meio da ressurreição de Jesus Cristo. Sua vida, sua entrega na cruz e sua vitória sobre a morte revelam que o amor de Deus é maior do que qualquer dor, fracasso ou pecado. Nos dias de hoje, quando tantas pessoas enfrentam solidão, medo e sofrimento, essa mensagem é consoladora e mais, é transformadora: ela nos assegura que nenhuma dor é definitiva, que nenhuma noite é eterna e que, mesmo nas situações mais difíceis, Deus faz nascer vida nova. A cruz não é o fim. A pedra removida do sepulcro anuncia que Deus continua a agir, mesmo quando tudo parece perdido.
A liturgia da Semana Santa nos conduz, passo a passo, a esse mistério. No Domingo de Ramos, contemplamos um Messias humilde, que entra em Jerusalém não com poder, mas com mansidão. Na Quinta-feira Santa, somos levados ao gesto desconcertante de um Deus que se faz servo. Como recorda o Papa Francisco, ao refletir sobre o lava-pés, esta é a noite em que Cristo nos ensina a amar concretamente, tornando-nos servidores uns dos outros. Em um mundo obcecado por status e reconhecimento, esse gesto continua sendo um desafio direto: quem está disposto a descer de seu pedestal para levantar o outro?
Na Sexta-feira da Paixão, o silêncio da cruz ecoa as dores da humanidade. O sofrimento de Cristo não é distante, se reflete nas injustiças atuais, na violência, nas desigualdades e nas feridas sociais que ainda sangram. Como ensinou o Papa Bento XVI, a cruz não é derrota, é o maior sinal de amor e salvação. Ela ensina que a verdadeira força não está no domínio, e sim na capacidade de amar até o fim, de perdoar e de permanecer fiel, mesmo diante da dor.
O Sábado Santo mergulha em um silêncio que fala ao coração do homem contemporâneo, acostumado ao ruído constante. É o tempo da espera, do recolhimento, da fé que resiste quando não há respostas imediatas. Na Vigília Pascal, a luz rompe a escuridão. A Ressurreição proclama que a vida vence a morte, que o amor supera o ódio, que a esperança é mais forte do que o desespero.
Essa esperança, como recorda Papa Leão XIV em sua mensagem pascal de 2026, traduz uma força viva que nos impulsiona a transformar o mundo hoje, a curar feridas, reconstruir relações e fazer nascer vida nova onde antes havia morte.
A Semana Santa também nos confronta. Em um tempo de superficialidade e relações frágeis, surge a pergunta: até que ponto caminhamos realmente com Cristo? Ou apenas o seguimos de longe? A traição de Judas, agora, se repete nas pequenas escolhas do cotidiano, quando preferimos a ilusão à verdade, o egoísmo à partilha, o silêncio à justiça. Vivemos conectados, com pleno acesso à informação. No entanto, continua difícil transformar esse fluxo constante em sabedoria, verdade e comunhão.
Caminhar com Jesus hoje é resistir a essa lógica. É escolher permanecer quando tudo convida a desistir. É aprender que a fé não se mede pelos momentos de entusiasmo, mas pela fidelidade nos dias difíceis. É sair da superficialidade e mergulhar na profundidade da vida, reconhecendo nossas contradições, mas sem fugir delas.
A Ressurreição, por sua vez, é um chamado à coerência. Somos desafiados a viver uma fé que se traduz em atitudes concretas. Não basta acreditar: é preciso testemunhar. A esperança, a justiça, a reconciliação e a paz devem se tornar visíveis na vida de cada cristão e de cada comunidade.
Diante de um mundo ferido por guerras, divisões e incertezas, a mensagem pascal nos convida a mudar o olhar. Como recorda o custódio da Terra Santa, a Ressurreição inverte os critérios do mundo: aquilo que parecia derrota torna-se vitória, aquilo que parecia fraqueza revela-se força. O amor que se doa é, no fim, a única realidade capaz de transformar a história.
Para as novas gerações, esse anúncio é ainda mais urgente. Educar é transmitir conhecimento, além de formar corações capazes de amar, servir e construir um mundo mais justo. A Páscoa nos inspira a acreditar que o bem é possível e que a vida tem sentido mesmo em meio aos desafios.
Celebrar a Semana Santa é muito mais do que participar de ritos. É permitir que o mistério de Cristo atravesse a vida, renove a esperança e transforme nosso modo de viver. Devemos aprender a “lavar os pés”, a “partir o pão”, a “abraçar a cruz” e a “ressurgir” todos os dias.
Porque, no fim, a grande verdade que ecoa dessa semana é simples e poderosa: o amor não falha, a vida não termina na dor, e sempre, mesmo após a noite mais escura, a luz volta a nascer.

























