
RIBAMAR VIEGAS - ESCRITOR LUDOVICENSE
No frescor da adolescência, Maria Eugenia, nascida no povoado de Matões, no município de Viana, na Baixada Maranhense, pescava diariamente com o pai nas barrancas do rio Pindaré para ajudar no orçamento da casa. Entre uma fisgada e outra, ela sonhava com uma vida melhor numa cidade grande. Mas o destino traiçoeiro empurrara-lhe um caminho ainda mais íngreme.
Um pescador de nome Josué Romão Silva, apelidado de Caveirinha, morador do mesmo povoado, em uma malemolência da vida, teve um “momento” de amor com a sonhadora Maria Eugênia e fez comentários do ocorrido. Mesmo sabendo das crises de ciúmes precoces do pescador ‒ nem namorados eram ‒ para manter a honra da família, ela casou-se com o rude e mau-caráter Caveirinha.
Cedo Maria Eugênia descobriu sua falta de vocação para uma vida doméstica. Não nascera para ser dona de casa nos moldes tradicionais de uma mulher presa a um homem. Ela trazia no sangue aquela inquietação, o desejo de experimentar o desconhecido. Surgiu Tarciso, um primo ignorado, provindo do Piauí, que chegara para passar férias e rever Matões, sua terra natal. Tarciso era alto, magro, fala diferente e estava sempre perfumado. Maria Eugênia encheu-se de encanto por Tarciso, e ele por ela. Na ausência de Caveirinha, eles trocavam confidências, abraços e beijos “amistosos”.
Caveirinha, inquieto com a presença indesejável do primo da mulher, passou a encher a cara de cachaça, e a coisa aconteceu: naquela noite, enquanto Caveirinha bebia cachaça jogando carteado no bar de Misael, Maria Eugênia, refém de um sentimento avassalador pelo primo, beijou-o, deixou-se beijar intensamente e, por fogosidade sexual dos dois, foram parar na cama. Caveirinha, ao voltar da cachaçada, vendo a porta da casa fechada e ouvindo gemidos abafados, não teve dúvidas: meteu o pé na porta, escancarando diante dos olhos a cena do crime.
― Que sacanagem é essa?...
Espumando de raiva, lançou-se sobre Tarciso como um bicho selvagem... Tarciso, lépido, pulou a janela entreaberta e ganhou a rua completamente despido, causando espanto e olhos esbugalhados dos vizinhos que conversavam nas portas. Com os cornos ardendo, as mãos do pescador caíram pesadas sobre o pescoço da mulher, apertando-o até quase desfalecer. Depois a pegou pelos cabelos e conduziu-a até a frente da casa. Diante do olhar estupefato da plateia, jogou-a no meio da rua. Na queda, Maria Eugênia bateu o nariz de encontro a uma pedra, provocando sangramento. Dois policiais de Viana que saíram do bar de Misael agiram rápido, e Maria Eugênia escapou da morte por uma dessas conspirações do destino. O pescador foi preso em flagrante jurando vingança. Maria Eugênia entendeu que seu destino estava selado, a menos que desse o fora dali. Contando com a ajuda da família, rumou para a capital, com uma trouxa e algumas cédulas. Alugou uma porta e janela às margens da BR ‒ 135, que transformou em “parada obrigatória” de homens à procura de sexo. Fixou na porta do casebre um cartaz com a inscrição: “A MULHER DO PRÓXIMO”. E assim, a cada cliente atendido, gritava para a fila: o próximo! Chegara a ter dez clientes por noite. Logo ficou famosa pela satisfação que dava a todos aqueles que com ela se deitavam.
Numa noite de lua cheia, ao terminar de atender um cliente, levantou-se, arrumou a cama, foi ao banheiro e olhou-se no espelho. Ao rever a cicatriz no nariz, lembrou-se de Caveirinha e pensou: se ele fosse menos ciumento... mas um dia ele me paga!... Retocou os lábios com batom e chamou o próximo. Apesar de muito abatido pelos anos, barba por fazer, cabisbaixo, ela reconheceu Caveirinha. Com muita frieza, sem temor, consciente de sua supremacia, preparou-se para recebê-lo em coito, quando ele interveio:
― Não vim deitar contigo! Vim para te levar de volta pra casa. E ela respondeu que era tarde demais. Agora ela era mulher de muitos homens e gostava de ser. Além do mais, jamais perdoaria a agressão que provocara ferida no seu corpo e na sua alma. Afirmou ser muito feliz por não ser encabrestada por homem nenhum. Ele falou que, sem ela, a vida perdeu o sentido, e implorou uma sociedade:
― Eu entro com o dinheiro e também com o trabalho. Nas horas de folga, tu serás minha. Maria Eugênia demarcou o terreno:
― Eu sou do mundo. Do mundo por dinheiro. Se for pra eu continuar aqui ganhando o meu dinheiro, fazendo o que gosto, e tu ajudando, quem sabe?...
Selada a sociedade, o pescador reformou a casa, construiu um segundo pavimento para a privacidade do casal, trocou a placa da entrada por uma maior e luminosa e comprometeu-se a organizar a fila de clientes. No seu primeiro dia de “trabalho”, focado como todo iniciante que precisa fazer bem feito para agradar ao patrão, ficou atento aguardando a mulher consultar o espelho, retocar o rosto com Rouge Carmi e ordenar: “já pode!” Ele, então, temperou a garganta com um, hum-hum, e iniciou o seu trabalho de todas as noites, chamando:
― O PRÓXIMO








Por CARLOS AROUCK
FORMADO EM DIREITO E ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS
Existe um momento na vida em que a política deixa de provocar indignação e passa a provocar cansaço. Não porque as convicções tenham desaparecido, nem porque tenhamos desistido de defender aquilo em que acreditamos, mas porque chega a hora em que percebemos que o tempo corre muito mais depressa do que as mudanças pelas quais tanto lutamos.
Pertencemos a uma geração que acreditou no Brasil. Acreditamos que o país poderia encontrar seu caminho, superar suas contradições, fortalecer suas instituições e oferecer aos brasileiros um futuro diferente daquele que tantas vezes nos foi apresentado como inevitável.
Acompanhamos governos, crises, escândalos, promessas e sucessivas tentativas de reconstrução nacional. Votamos, protestamos, denunciamos, escrevemos e debatemos. Em cada eleição, renovamos a esperança de que as escolhas feitas nas urnas pudessem abrir um novo capítulo da nossa história.
Passamos praticamente todo o século XXI combatendo o que consideramos a degradação política e moral do Brasil. Vimos estruturas de poder se consolidarem para além da disputa eleitoral, alcançando a própria consciência de parte da sociedade. Mas o tempo passou e para muitos de nós, passou depressa demais.
Envelhecemos à espera de um país que nunca chegou. Essa talvez seja uma das constatações mais dolorosas de quem atravessou décadas acreditando que a próxima eleição, o próximo governo ou a próxima mudança política finalmente colocaria o Brasil no caminho desejado.
O problema já não é apenas o resultado de uma disputa eleitoral. É compreender que muitos brasileiros que votaram nestas eleições, defenderam suas convicções e depositaram suas esperanças nas urnas talvez não tenham tempo de vida suficiente para assistir ao país que desejavam construir. São homens e mulheres que chegaram à velhice sem ver realizadas as mudanças pelas quais lutaram durante boa parte da existência. Para eles, o futuro deixou de ser uma promessa distante. Tornou-se uma questão de tempo, e o tempo não espera.
Não foram apenas anos de espera. Foram anos que deixamos de viver plenamente, consumidos pela expectativa de uma transformação que parecia sempre próxima e que, a cada amanhecer, se afastava um pouco mais. Assistimos à consolidação de estruturas de poder, à repetição de práticas que julgávamos superadas e à sucessão de conflitos que alimentaram a descrença. Acreditamos que a verdade prevaleceria sobre a conveniência, que as instituições resistiriam às tentações do poder e que a democracia seria capaz de corrigir seus próprios desvios.
O tempo, juiz silencioso e implacável, não devolve os anos sacrificados. Há uma crueldade particular em perceber que dedicamos a melhor parte da existência a uma batalha sem o desfecho esperado.
Envelhecemos lutando. Enquanto lutávamos, a vida passou.
Nossos filhos cresceram, constituíram suas famílias e começaram a enfrentar os mesmos problemas que atravessaram nossa juventude. Queríamos entregar-lhes uma nação mais livre, mais justa, mais segura e com oportunidades.
Não imaginávamos que tantas das nossas preocupações continuariam presentes quando chegássemos à velhice.Hoje olhamos para os filhos e netos com a inquietação de quem teme deixar como herança aquilo que passou a vida tentando mudar.
Existe uma diferença entre perder uma eleição e sentir que uma geração inteira perdeu a oportunidade de ver concretizado o país pelo qual lutou. A alternância de poder faz parte da democracia. O que angustia é a sensação de que os problemas permanecem, as estruturas se reorganizam e as esperanças são novamente adiadas, enquanto os anos de quem espera não podem ser recuperados.
A reconstrução de uma nação exige décadas; a existência humana não admite prorrogações. Essa é a dimensão mais dolorosa da frustração: não apenas a possibilidade de não vermos o Brasil que sonhamos, mas a consciência de que talvez já não tenhamos a juventude, a disposição ou o tempo necessários para acompanhar sua reconstrução.
Ao longo dessa caminhada, aprendemos que nem sempre a razão vence, que nem sempre a verdade prevalece e que nem sempre as instituições correspondem à confiança que a sociedade deposita nelas. O mais preocupante é perceber que a disputa deixou de ser apenas entre projetos de governo. Passou a envolver a própria compreensão de democracia, liberdade, justiça e limites do poder. Quando uma sociedade começa a tratar como normal aquilo que antes considerava inaceitável, alguma coisa muito séria está acontecendo.
Há uma tragédia silenciosa em chegar ao entardecer da vida e descobrir que a pátria pela qual se lutou continua sendo uma promessa adiada. É uma espécie de exílio dentro da própria terra. Nós ainda tivemos o direito de sonhar com outro Brasil. Receio que nossos filhos e netos recebam um país no qual até o sonho tenha se tornado um luxo.
Talvez não tenhamos cometido outro erro senão acreditar que a história caminharia necessariamente em direção ao progresso. Mas a história não tem compromisso com nossas esperanças. Não sabemos se veremos a recuperação das instituições, o reencontro do país com seus valores ou a transformação que tantas vezes esperamos. Essa incerteza precisa ser encarada sem ilusões.
Ainda assim, não podemos confundir o esgotamento com a ausência de responsabilidade. Não temos o direito de exigir que nossos filhos pensem exatamente como nós, mas temos o dever de transmitir-lhes valores que não podem ser negociados: liberdade, honestidade, responsabilidade, respeito à lei e amor à pátria. O silêncio dos que conhecem os erros do passado pode se tornar a oportunidade daqueles que desejam repeti-los.
O Brasil não pertence a um partido, a um presidente, a um tribunal ou a qualquer grupo que se considere dono do poder. Pertence a todos os brasileiros, inclusive àqueles que ainda nem nasceram. Essa consciência precisa sobreviver às nossas derrotas, às nossas decepções e ao cansaço de uma geração.
Talvez o destino de muitos que votaram nestas eleições seja não conhecer o resultado das mudanças que sonharam. Talvez não estejam vivos quando o país finalmente encontrar o caminho que desejavam. É uma constatação difícil, mas real para quem já chegou à terceira idade e percebe que a vida não oferece o mesmo horizonte de possibilidades de décadas atrás.
O maior fracasso de uma geração não seria perder uma batalha política. Seria desistir de transmitir às próximas gerações as razões pelas quais vale a pena continuar lutando.
Envelhecemos esperando um Brasil diferente. Talvez não sejamos nós a colher os frutos dessa espera. Mas que nossos filhos não precisem passar a vida inteira esperando aquilo que nós não conseguimos construir. Porque o Brasil não pode ser apenas o país das esperanças adiadas.








Mayrion Álvares da Silva
Estoquista
Instagram: @folhadebrumado
Nós fazemos tantas coisas
Para sermos lembrados,
Que nem percebemos
Que fomos feitos
Para sermos esquecidos.
Sobre a obra: Não é pelo fato que todos nós um dia seremos esquecidos, que não podemos doar o melhor de nós enquanto estivermos aqui.


























